Agora sou um salpico de orvalho
Uma gota distraída num raio de sol
E numa brisa, deslizo da folha onde descanso
Bato no chão empedrado, no meu rosto...
Lavo os meus olhos cansados
Sento-me atrás da chuva
Onde todos me podem ver
A minha cortina de lágrimas,
O meu esconderijo translúcido
Onde represento o papel principal
Caio ao rio num presente de luar
Mergulho na parte má da minha mente
Rio-me do demónio que conservo arrolhado
Escorro pelas paredes de vidro
Resvalo no abismo e desaguo em ti…
.:silent scorn - megadeth
Domingo, Novembro 08, 2009
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
Inconsciente
Encolhidos pelos cantos, encostados às paredes, estão os sonhos
Perdidos nos buracos, escondidos à luz de velas, estão os amores
Na confusão de uma mente, encobertos por sorrisos, estão os desejos
Na penumbra da verdade, no limiar de cada história, está a mentira
As lágrimas doces e suaves, afastam-se como gotas de chuva
Dos olhares sinceros que se perdem ao fundo de cada rua
A consciência imortal, dita os pecados
Define os culpados, e esquece qual é a lei
Como tal, prefiro estar inconsciente…
.:flying in a blue dream - joe satriani
Perdidos nos buracos, escondidos à luz de velas, estão os amores
Na confusão de uma mente, encobertos por sorrisos, estão os desejos
Na penumbra da verdade, no limiar de cada história, está a mentira
As lágrimas doces e suaves, afastam-se como gotas de chuva
Dos olhares sinceros que se perdem ao fundo de cada rua
A consciência imortal, dita os pecados
Define os culpados, e esquece qual é a lei
Como tal, prefiro estar inconsciente…
.:flying in a blue dream - joe satriani
Domingo, Outubro 25, 2009
às vezes
às vezes gostava de saber porque te vestes assim e sais à rua carregando a fanfarra, de um modo tão presunçoso que te aches importante o suficiente para que todo mundo seja teu inimigo.
às vezes prefiro não saber em que sítio enterraste a parte de ti que não se importa, como um machado de guerra que não quis fazer mal a ninguém.
às vezes pergunto-me porque te fechas em epílogos monótonos de paginação dúbia, ou te abres em sequências matemáticas estapafúrdias, deslizando em variações hiperbólicas, quando o teu horizonte é apenas uma ilusão, uma degenerada assímptota do teu pensamento.
às vezes nem o precioso silêncio é o teu melhor aliado…
é que às vezes, e num simples sumário retrospectivo, não te entendo…
.:we call upon the author – nick cave
Domingo, Outubro 18, 2009
Dois anos antes (o segredo parte quatro)
Atravessou as cortinas translúcidas colocando desajeitadamente o lenço à volta do pescoço, tentando coordenar os movimentos com o andar apressado.
Os seus pés descalços sentiam o contacto com a relva húmida da manhã.
Estava livre, gritava para dentro da sua alma.
Não existiam vidraças através das quais teria que continuar a olhar sonhadora.
Correu pela paisagem parada da sua vida, numa cinemática câmara lenta, até que parou…
Ajoelhou-se e chorou…
O mundo rodou e escureceu…
O ruído da cidade que entrava pela janela aberta despertou-a.
Dentro do seu apartamento nunca se sentira tão claustrofóbica e tão só…
Com as costas das mãos com a raiva de quem se esbofeteia, limpou as lágrimas.
As pétalas escuras das rosas secas esvoaçam lentamente para o chão, aninhando-se perto das folhas manuscritas que caíram de dentro da caixa de recordações.
Deslizou para dentro das calças de ganga. Escolheu uma blusa de decote generoso, calçou as botas pretas que lhe davam os centímetros necessários para conquistar o mundo, realçando a sua forma esguia e sensual, vestiu o casaco, inspirou fundo e à saída bateu com a porta na cara do presente.
Em breve ela seria a música que ouvia dentro da sua cabeça, e o seu corpo um meio para atingir o fim ritmado a que se propôs.
O segredo começava, pulsando com as pronunciadas batidas… do coração?
.: breathe - alexi murdoch
Domingo, Outubro 11, 2009
Outros amantes (o segredo parte 3)
[6:45 - Madrid]
A manhã anuncia-se preguiçosa pela janela do quarto de hotel.

O homem estrangula um cigarro por entre os dedos, enquanto vê o fumo libertar-se, e finalmente aspira um pouco mais, distraído…
Ao seu lado, na cama, a mulher dorme profundamente, deitada nua sobre os lençóis.
Ele levanta-se, abre a janela, cumprimenta a cidade e do décimo andar lança a beata acesa e ri para si mesmo, observando o lento acordar da cidade.
[10:45]
À saída olha para trás, para a cama vazia e desfeita…
[13:49 – porta de embarque]
Barcelona, Porto, Lisboa, Paris, Frankfurt, New York, outros amantes, outros segredos - este é o seu…
.:this mess we’re in – pj harvey & thom yorke
A manhã anuncia-se preguiçosa pela janela do quarto de hotel.

O homem estrangula um cigarro por entre os dedos, enquanto vê o fumo libertar-se, e finalmente aspira um pouco mais, distraído…
Ao seu lado, na cama, a mulher dorme profundamente, deitada nua sobre os lençóis.
Ele levanta-se, abre a janela, cumprimenta a cidade e do décimo andar lança a beata acesa e ri para si mesmo, observando o lento acordar da cidade.
[10:45]
À saída olha para trás, para a cama vazia e desfeita…
[13:49 – porta de embarque]
Barcelona, Porto, Lisboa, Paris, Frankfurt, New York, outros amantes, outros segredos - este é o seu…
.:this mess we’re in – pj harvey & thom yorke
Domingo, Outubro 04, 2009
A chamada (o segredo parte 2)
o telefone sai do descanso preguiçoso
dedos hipnotizados caem sobre os dígitos
definem o rosto que se insinua no fundo da mente - - -
- - estás abraçada a ti mesma - -
distraidamente e envergonhada deixas a mão deslizar sobre a perna e sentes-te sensual --
inconscientemente apertas o aparelho contra o teu peito - - é o único que sentes
- - suspiras enquanto ouves som de chamada
tuuuuut … tuuuuut … tuuuuut
a respiração sai-te por entre os lábios e-n-t-r-e-c-o-r-t-a-d-a
tuuuuut … tuuuuut … tuuuuut
a tua mão continua a deslizar insistentemente por entre as coxas - - pelo teu sexo, os teus dedos sentem o calor, a humidade
tuuuuut … tuuuuut
- - fechas os olhos
… tuuuuu
do outro lado alguém atende - a voz masculina faz-se ouvir…
[estou sim? estou? … estou? …? quem fala?]
relaxas, soltando um último gemido - - -
[click!]
tuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu…
- - arrumas o telefone, a ti mesma e o segredo mantém-se.
.:glory box - portishead
dedos hipnotizados caem sobre os dígitos
definem o rosto que se insinua no fundo da mente - - -
- - estás abraçada a ti mesma - -
distraidamente e envergonhada deixas a mão deslizar sobre a perna e sentes-te sensual --
inconscientemente apertas o aparelho contra o teu peito - - é o único que sentes
- - suspiras enquanto ouves som de chamada
tuuuuut … tuuuuut … tuuuuut
a respiração sai-te por entre os lábios e-n-t-r-e-c-o-r-t-a-d-a
tuuuuut … tuuuuut … tuuuuut
a tua mão continua a deslizar insistentemente por entre as coxas - - pelo teu sexo, os teus dedos sentem o calor, a humidade
tuuuuut … tuuuuut
- - fechas os olhos
… tuuuuu
do outro lado alguém atende - a voz masculina faz-se ouvir…
[estou sim? estou? … estou? …? quem fala?]
relaxas, soltando um último gemido - - -
[click!]
tuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu…
- - arrumas o telefone, a ti mesma e o segredo mantém-se.
.:glory box - portishead
Domingo, Setembro 27, 2009
Desvanecimento (o segredo)
A mulher bate freneticamente e com força à porta daquela casa.
[o grito acontece enquanto a tinta se quebra um pouco mais]
Um casal jovem beija-se sofregamente na esquina daquela mesma rua.
[é luxúria, não amor]
As lágrimas escorrem pelo rosto da mulher desesperada; as suas mãos doridas encostam-se devagar à madeira.
[escorrem devagar, despreocupadas]
Os jovens olham-na agora curiosos.
[ao longe o palhaço ri… o mundo inteiro ri]
A patética mulher encolhe-se no chão. Os jovens regressam despreocupados à sua rotina lasciva.
[a mundos de distância, estrelas revelam-se, estrelas caem no esquecimento]
Um rosto soturno aparece brevemente à janela espiando por trás da cortina.
[o olhar é vago, o sorriso perturbador]
As faúlhas do dia desvanecem-se em cinzas e o silêncio cai insistentemente sobre a noite…
[Está a nevar? Questiona-se]
Está frio, e mesmo assim, nada mudou…
[Continua o segredo, como quem omite algo importante]
.:hoppipolla - sigur rós
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