O trovão quebra o céu. Ilumina-o como
se o mundo fosse coberto por uma cúpula luminosa.
Chove. Chove as agruras do
deserto gretado por tanto tempo pela seca. Chove pelas gargantas sequiosas e peles
queimadas pelo longo, estendido e ardente Verão – Mais de meio de Outubro e a
estrela de aurora finalmente deixava de pavonear a sua glória.
As gotas largas, maciças, pesadas
caiam como jarros de água lançados incessantemente, uns após outros – era a
vingança das negras nuvens e das baixas temperaturas, reclamando o seu tempo e lugar.
Finalmente chovia.
Corres e a água que te escorre
sobre o rosto, que empapa o teu corpo não perdoa. As pernas cortam caminho
pelas cortinas molhadas seguindo o som, pois a visão é coberta pela forte
torrente.
A sirena canta e tu sabes que
tens que acelerar. Pedes mais e mais ao corpo que se esgota, não para fugir dos
monstros que com os anos e a custo conquistaste e derrotaste. Corres porque
tens que partir. Arrepiar caminho. Neste sítio nada mais há para ti. Apenas um
coração quebrado como promessas feitas num altar. Apenas esperanças esfumadas.
Aqui a vida terminou para ti, por
isso foges com medo, porque “se a morte te apanha”…
É finalmente a mudança de
estação, e nesta estação corres para apanhar aquele comboio que devora louco as
suas linhas e ameaça escapar se as pernas não te obedecem, sabendo tu que se
isso acontece, se tal malvado fado se cantar, ficarás preso à morte, ao sonho
dos cabelos longos que perfumaram o teu Verão e o esfaquearam como um frio e
indiferente Inverno – Inferno.
Não! Gritas por entre as gotas,
por entre as vagas das águas. Isso não era uma opção.
Corres lado a lado com a gigante
besta que faz desfilar rapidamente as suas carruagens por ti. Estás a perder. Ele
está a escapar-te. Baixas os olhos em desalento apenas para os voltar a erguer
com a raiva, com a indignação, com o teu direito de vender cara a derrota.
Sem dares por ti o corpo
eleva-se, ergue-se atleticamente do chão. Os braços estendidos sentem o esticão
quando as mãos agarram o ferro. Segues pendurado uns extenuantes metros e por
milagre, adrenalina ou convicção, chegam as forças que te lançam para dentro do
vagão.
O relâmpago silencioso cruza os
céus. As pingas caem agora devagar.