Segunda-feira, Fevereiro 20, 2012

carnival



deixo que a máscara escorregue através do meu corpo. 

[a pintura cobre o meu rosto e o sorriso abre-se largo]

deslizo ao longo do corredor escuro e na minha mente as palavras tomam a forma de uma canção:
[abraça-me, arrebata-me, beija-me, mataaaaaa-meeeee]

salto para a rua e lanço-me perante o desafio de uma noite de loucura e libertação.
[o meu nome é...]

desloco-me suavemente por entre as máscaras, os corpos, as luzes, a música e o ruído.
[não é Halloween, mas olho com doçura e mordo com travessura]

do fundo da minha garganta produz-se uma gargalhada fenomenal…
[e o mundo é meu]


Domingo, Janeiro 29, 2012

o mundo saiu à rua


O mundo saiu à rua por engano
Estava a chover, a ranger, a gemer
Tinha o casaco enxovalhado
Mas saiu decidido à procura de alguém

Tinha o lenço na lapela
E o orgulho na algibeira
O mundo quedou-se na viela
Cansado da vida inteira

Cruzou com um macaco parado
Bem podia ser o diabo disfarçado
Comprou-lhe a fruta imaginária
Viveu a realidade do pecado

Foi aos tropeções pelas ruas
Com todos os rasgos na consciência
Ouviu falar de tanta coisa
Que ficou sem saber onde está

O mundo vai rodopiando
Deslizando entre os astros e desastres sem fim
Em espirais de órbita aleatória
Por momentos de quase eterna escuridão
Vai um mundo embriagado
Um mundo enganado
Um mundo roubado
Um mundo estuprado
Lentamente detém a marcha
E encosta-se na auto-estrada
Como um "flop-flop" de pneu furado
Senta-se na berma a aguardar boleia...
Vá onde for, este mundo não anda a pé...


.:lonely planet - the the

Sábado, Janeiro 07, 2012

obnubilado



Olho o céu…

A estrela cadente que passa, o cometa, o meteoro…

E peço…

Impele-me, faz-me crescer, viajar pelos espaços vagos, pelos reveladores silêncios que me inspiram como um sopro, uma brisa…

Majestosa – assustadora – bela – é a presença do infinito… 

O caminho que se abre é o único que resta a um par de botas cansadas, aos passos nem sempre seguros, mas determinados a avançar e continuar – não é na realidade uma escolha. 

Leva-me de volta às vezes em que fico a fitar a página branca, à espera que as palavras a preencham…

Talvez faça tempo demais que escrevo. Talvez tenha deixado demasiado tempo entre cada frase, e esse tempo tenha ganho distância e nos tenha deixado mais longe.

Esqueço-me do meu dia – destes dias – e dos pormenores que não se devem negligenciar.

Não faz diferença… 

Escurece cada vez mais, depois…


.:the downward spiral - nine inch nails

Quarta-feira, Dezembro 21, 2011

antes




antes que os ponteiros 
se tornem flechas de ponta afiada

antes que a roda dentada 
se morda nas voltas do tempo

antes que as ampulhetas 
enlouqueçam e escorram na areia

antes que a face
volte as costas
antes que o inicio
se encontre no fim

antes que voltar atrás
seja um caminho longo demais

antes da conspícua senhora
dar a sua longa passada

antes que a memória
seja tudo o que resta

vá, sorri…

antes…

(feliz natal)

Terça-feira, Novembro 29, 2011

tempo (Fábulas de Outono V)




Os dias parecem correr depressa demais. Não encontras tempo para olhar para trás, para a poesia, para as flores, para as pessoas.

Tanto tempo na estrada, tanto tempo a desejar parar, e agora estares onde queres e te sentires preso. Sem veres hora de partir – fugir.

São pensamentos insensatos e tu sabes bem. Mas a claustrofobia é mais forte que numa caixa de papelão. A sensação de ser perseguido, mais do que todas as vezes que o foste. O mundo parece-te um local demasiado pequeno e solitário em que ou se vive o completo silêncio ou o ruído ensurdecedor.

Apetece-te dormir por muito tempo. Acordar apenas quando a ânsia, a insatisfação te abandonarem, ou quando o mundo passar a ter tempo para ti. Para te ver, para te dedicar um pouco da sua atenção e te presentear com… algo…

Sabes que a chuva se escapa devagar quando o frio te leva a levantar as golas do casaco e cingir o cachecol contra o pescoço. 

Num círculo infinito caminhas nos teus pensamentos. Sempre nas passadas do tempo, mas sempre demasiados passos atrás. Muitas vezes até em sentido oposto ao dos outros – de todos os outros. A idade leva-te e não te torna mais sabedor. Quando muito mais conhecedor das dúvidas, dos teus próprios terrores, do teu minúsculo e auto manufacturado inferno onde gostas de te enfiar.

Onde vais? Onde te levam os pés? Para casa. Na direcção do calor aconchegante para o corpo, mas que não aquece a alma de quem se liberta de um outro dia passado, sacudido com o frio, dos ombros.

Dez segundos – dois passos lentos…
Dois segundos apenas… para terminar o roteiro de autocomiseração.

Abres a porta – esperam-te.
Sorris e perguntas-te…

O tempo muda. Tu mudas? Ou corres apenas para voltar para onde estavas?

Sábado, Novembro 12, 2011

amanhãs (fábulas de outono iv)


Quando os teus pés descalços tocam a areia molhada relembras os Outonos que passam e desfolham com os anos por entre as outras estações e com eles os remédios amargos que têm que ser tomados… devagar…

Engoliste as tuas doses no processo a que se chama crescimento. Com a dor das escolhas, com a alegria das vitórias e sempre, sempre com a saudade e lembrança de quem sente que viveu já tantas vidas numa só.

Os tempos de miúdo traquina e aventureiro já lá vão. Ficaram pelas longas horas à boleia na berma das estradas, nos comboios, nas corridas pelos pomares. Na vida que vai do sol nascente ao sol poente. Por outras tantas corridas na praia como a que principias agora quando as finas gotas de chuva te beijam o rosto.

Parece não fazer muitos dias que cada centímetro de areia se encontrava coberto pela amálgama de corpos, toalhas e guarda-sóis. 

Hoje, és só tu e o mar. Dois solitários que se acercam da praia, que esticam os dedos sobre ela, sob a chuva miúda.

Precisas esquecer-te de ti por alguns momentos. Precisas que a água te lave e leve os pensamentos por algum tempo. Noutro dia outros pés far-te-ão companhia. Marcarão lado a lado um caminho mais longo…

Mas hoje é apenas dia de esquecer, enquanto a água da chuva te envolve e te revolve – os planos, as escolhas dos teus próximos amanhãs…


Quinta-feira, Outubro 27, 2011

Partida (Fábulas de Outono III)


O trovão quebra o céu. Ilumina-o como se o mundo fosse coberto por uma cúpula luminosa.
Chove. Chove as agruras do deserto gretado por tanto tempo pela seca. Chove pelas gargantas sequiosas e peles queimadas pelo longo, estendido e ardente Verão – Mais de meio de Outubro e a estrela de aurora finalmente deixava de pavonear a sua glória.
As gotas largas, maciças, pesadas caiam como jarros de água lançados incessantemente, uns após outros – era a vingança das negras nuvens e das baixas temperaturas, reclamando o seu tempo e lugar.
Finalmente chovia.
Corres e a água que te escorre sobre o rosto, que empapa o teu corpo não perdoa. As pernas cortam caminho pelas cortinas molhadas seguindo o som, pois a visão é coberta pela forte torrente.
A sirena canta e tu sabes que tens que acelerar. Pedes mais e mais ao corpo que se esgota, não para fugir dos monstros que com os anos e a custo conquistaste e derrotaste. Corres porque tens que partir. Arrepiar caminho. Neste sítio nada mais há para ti. Apenas um coração quebrado como promessas feitas num altar. Apenas esperanças esfumadas.
Aqui a vida terminou para ti, por isso foges com medo, porque “se a morte te apanha”…
É finalmente a mudança de estação, e nesta estação corres para apanhar aquele comboio que devora louco as suas linhas e ameaça escapar se as pernas não te obedecem, sabendo tu que se isso acontece, se tal malvado fado se cantar, ficarás preso à morte, ao sonho dos cabelos longos que perfumaram o teu Verão e o esfaquearam como um frio e indiferente Inverno – Inferno.
Não! Gritas por entre as gotas, por entre as vagas das águas. Isso não era uma opção.
Corres lado a lado com a gigante besta que faz desfilar rapidamente as suas carruagens por ti. Estás a perder. Ele está a escapar-te. Baixas os olhos em desalento apenas para os voltar a erguer com a raiva, com a indignação, com o teu direito de vender cara a derrota.
Sem dares por ti o corpo eleva-se, ergue-se atleticamente do chão. Os braços estendidos sentem o esticão quando as mãos agarram o ferro. Segues pendurado uns extenuantes metros e por milagre, adrenalina ou convicção, chegam as forças que te lançam para dentro do vagão.
O relâmpago silencioso cruza os céus. As pingas caem agora devagar.