Ilustro-te no pensamento
Um reflexo intangível na orla da mente
Intrinsecamente só
Afundado no gotejar da tua reminiscência
Beijo o céu e os teus lábios sabem a chuva
Como uma diáfana lágrima
Escorro dos teus olhos para o chão
E caio interminavelmente
Beijo um cigarro num abraço alcoólico
Vagueio de corpo em corpo
Dançando com os teus fantasmas
Abrigado na tua ausência
Passo através de um espelho baço
Deslizo pela tua essência
Encharco-me no teu elixir
Dissipo-me na demência
.:the saddest song - morphine
Segunda-feira, Junho 22, 2009
Sexta-feira, Junho 05, 2009
Canção
A música desenvolve-se calmamente preenchendo todos os espaços da sala com um sentimento de falta e vazio. A melodia entorpece pela sua beleza, propagando-se pelos cantos, tocando os objectos com mãos invisíveis que vão deixando os seus dedos deslizar suavemente por cada peça de mobiliário, por cada peça de decoração, até que ele finalmente sente um sopro que se aflora aos ouvidos, sussurrando-lhe coisas que o fazem estremecer, atingindo-o como um golpe para os sentidos.
Ali estava ela começando a insinuar-se, como uma companhia, uma terrível e cruel amante, desejosa por despi-lo dos preconceitos que o impedem de chorar.
A sua fragrância, como o perfume de uma mulher começa a fazer-se sentir, imiscuindo-se nas suas narinas como uma presença feroz, enquanto que os dedos imaginários lhe tocam o rosto e os seus lábios o beijam levemente. Dizendo adeus. Os seus, movem-se sem deles provir um som, tentando transformar em palavras cada lágrima que não se sente capaz de soltar.
Cada acorde que os seus dedos formam, espraiados sobre os trastes do braço da guitarra acústica, representam mais uma agrura com que vai embebendo a sua canção, fazendo-a assumir os contornos, que espelham os sentimentos.
Em surdina, começa a cantar agora, numa voz insegura e pouco audível, como alguém que está com medo de cair e procura uma saliência onde se possa agarrar, e vai chorando calado, segurando as lágrimas lá dentro.
A letra começa com palavras tímidas de culpa, compondo o cenário. Na sua imaginação, as suas mãos escorregam do seu apoio, o chão desaparece, e o seu corpo cai de costas interminavelmente, puxado para um abismo escuro e fundo, dominado pela dor.
Entretanto, a sua voz começa a ganhar consistência, e vai crescendo mais segura de si, misturando-se no som que envolve o compartimento.
Ele sente a libertação, transformando todo o sofrimento, dirigindo-o para as palavras que flúem de si, e num momento a sua queda é atenuada, e ele flutua, pairando no meio do espaço, no meio das estrelas, de um modo intangível como a melodia que o carrega, carregando-a ele também consigo, fundindo-se, como se separado do corpo físico, mas uno com a canção, deslizando pelo cosmo, cada vez mais esquecido da noção de espaço e de tempo.
O seu peito explode a cada nova nuance da composição, a sua respiração existe para o servir naquela demanda pela pacificação da alma, para o ajudar no que parece uma terrível batalha. O diafragma trabalha incansável, impondo o ritmo necessário, soltando-a, prendendo-a, enquanto o ar vai sendo lançado ora suavemente, ora furiosamente, quase por instinto, contra as cordas vocais que tremem e soltam em forma de notas as convulsões da mente. O corpo funciona numa sincronia única e inabalável, tão natural como se limitasse a respirar. A cada recordação, um acorde brilha soltando uma sequência de notas, e a cada expiração, um novo pranto.
A voz vai-se deslocando pelas progressões de acordes, acelerando ou contornando os sinuosos obstáculos criados com extrema mestria, sendo mais arrastada, mais roufenha, mais límpida, mais suave ou mais agressiva. Ora explodindo numa frase, ora recolhendo-se numa palavra abafada, que dói demais ao pronunciar...
Consoante o crescimento da composição, o som de novos instrumentos começa a surgir e a ganhar vida própria dentro do seu devaneio, fazendo-se ouvir nos seus mais ínfimos pormenores: um arpejo de uma segunda guitarra, uma abertura de pratos, cuja vibração parece durar eternamente, a linha do baixo que vai ressoando grave e possante, envolvendo e moldando. A suavidade das linhas de piano, o arranjo intrincadamente belo dos instrumentos de cordas, que se entrelaçam numa longa teia de êxtase musical e beleza inigualável.
Todos eles se esgrimem, combatendo como ferozes gladiadores numa estranha arena, numa competição sem par, mas ao mesmo tempo dançando, mesclando-se, entretecendo os sons que um Maestro invisível vai conduzindo até ao crescendo numa ponte musical que se desenha até ao infinito, enquanto o diafragma do cantor segura um quase interminável ‘vibratto’. Enquanto lágrimas caem cristalinas como diamantes dos seus olhos ainda cerrados, colando mais estrelas numa noite que começa lentamente a brilhar.
Todo o universo o acolhe e abraça, como seu filho, e ele sente toda a existência transcendê-lo. A dor e a felicidade, condensam-se num único momento, fazendo com que agora as lágrimas escorram em torrente.
Sente-se agraciado, pois toda a sua alma rejubila e vibra brilhante pela magia da criação, da elevação, da certeza de ter ultrapassado e sentido para além dos limites humanos depois de conhecer um pouco da verdadeira força e beleza da energia que compõe cada átomo daquilo que existe e ser acompanhado pela orquestra celestial, que a sua mente chamou para o amparar e aplacar o seu sofrimento.
Ele era pois, apenas mais um instrumento da canção universal, e como tal deixou-se conduzir também pelo Maestro, deixando a canção desembocar, num último suspiro, numa última lágrima, na última e solitária nota libertada pelo martelo que tocou a corda accionada pela tecla do piano, disse adeus pela última vez, depois de tantas e de diversas formas quando a sua boca se abria para cantar mais um verso...
Disse-o aos grilhões que o prendiam...
Disse-o à sua dor e amargura...
Sentado no meio da sala de olhos fechados vai sentindo a eternidade dos escassos minutos de duração da canção desvanecer-se...
O silêncio faz o seu papel durante alguns minutos, absorvendo as sensações e os resquícios de uma peça que ganhou vida própria desenvolvendo-se pela forma labiríntica que são os sentimentos que povoam a alma humana.
Agora estava de volta. Terminou a canção...
O peito inspira profundamente uma vez mais, agora não para cantar de novo, mas para calar o último soluço.
A dor não acabara aqui, era apenas o seu caprichoso começo, que ficaria imortalizado na canção que acabara de escrever.
Agora começaria a longa espera, para as feridas que iriam demorar a sarar, para que o tempo se desenrolasse rapidamente no seu novelo, sem se emaranhar...
O início de dias intermináveis procurando algo que não iria encontrar, porque o que irá procurar não é um objecto, mas sim uma presença, um olhar, um movimento, uma voz, um toque, um carinho, um beijo, um abraço por entre os lençóis finos da noite, e no entanto, muito mais que isso.
Esta é a canção que perdurará ecoando em todo o lugar, até que outra assuma o seu lugar.
Ali estava ela começando a insinuar-se, como uma companhia, uma terrível e cruel amante, desejosa por despi-lo dos preconceitos que o impedem de chorar.
A sua fragrância, como o perfume de uma mulher começa a fazer-se sentir, imiscuindo-se nas suas narinas como uma presença feroz, enquanto que os dedos imaginários lhe tocam o rosto e os seus lábios o beijam levemente. Dizendo adeus. Os seus, movem-se sem deles provir um som, tentando transformar em palavras cada lágrima que não se sente capaz de soltar.
Cada acorde que os seus dedos formam, espraiados sobre os trastes do braço da guitarra acústica, representam mais uma agrura com que vai embebendo a sua canção, fazendo-a assumir os contornos, que espelham os sentimentos.
Em surdina, começa a cantar agora, numa voz insegura e pouco audível, como alguém que está com medo de cair e procura uma saliência onde se possa agarrar, e vai chorando calado, segurando as lágrimas lá dentro.
A letra começa com palavras tímidas de culpa, compondo o cenário. Na sua imaginação, as suas mãos escorregam do seu apoio, o chão desaparece, e o seu corpo cai de costas interminavelmente, puxado para um abismo escuro e fundo, dominado pela dor.
Entretanto, a sua voz começa a ganhar consistência, e vai crescendo mais segura de si, misturando-se no som que envolve o compartimento.
Ele sente a libertação, transformando todo o sofrimento, dirigindo-o para as palavras que flúem de si, e num momento a sua queda é atenuada, e ele flutua, pairando no meio do espaço, no meio das estrelas, de um modo intangível como a melodia que o carrega, carregando-a ele também consigo, fundindo-se, como se separado do corpo físico, mas uno com a canção, deslizando pelo cosmo, cada vez mais esquecido da noção de espaço e de tempo.
O seu peito explode a cada nova nuance da composição, a sua respiração existe para o servir naquela demanda pela pacificação da alma, para o ajudar no que parece uma terrível batalha. O diafragma trabalha incansável, impondo o ritmo necessário, soltando-a, prendendo-a, enquanto o ar vai sendo lançado ora suavemente, ora furiosamente, quase por instinto, contra as cordas vocais que tremem e soltam em forma de notas as convulsões da mente. O corpo funciona numa sincronia única e inabalável, tão natural como se limitasse a respirar. A cada recordação, um acorde brilha soltando uma sequência de notas, e a cada expiração, um novo pranto.
A voz vai-se deslocando pelas progressões de acordes, acelerando ou contornando os sinuosos obstáculos criados com extrema mestria, sendo mais arrastada, mais roufenha, mais límpida, mais suave ou mais agressiva. Ora explodindo numa frase, ora recolhendo-se numa palavra abafada, que dói demais ao pronunciar...
Consoante o crescimento da composição, o som de novos instrumentos começa a surgir e a ganhar vida própria dentro do seu devaneio, fazendo-se ouvir nos seus mais ínfimos pormenores: um arpejo de uma segunda guitarra, uma abertura de pratos, cuja vibração parece durar eternamente, a linha do baixo que vai ressoando grave e possante, envolvendo e moldando. A suavidade das linhas de piano, o arranjo intrincadamente belo dos instrumentos de cordas, que se entrelaçam numa longa teia de êxtase musical e beleza inigualável.
Todos eles se esgrimem, combatendo como ferozes gladiadores numa estranha arena, numa competição sem par, mas ao mesmo tempo dançando, mesclando-se, entretecendo os sons que um Maestro invisível vai conduzindo até ao crescendo numa ponte musical que se desenha até ao infinito, enquanto o diafragma do cantor segura um quase interminável ‘vibratto’. Enquanto lágrimas caem cristalinas como diamantes dos seus olhos ainda cerrados, colando mais estrelas numa noite que começa lentamente a brilhar.
Todo o universo o acolhe e abraça, como seu filho, e ele sente toda a existência transcendê-lo. A dor e a felicidade, condensam-se num único momento, fazendo com que agora as lágrimas escorram em torrente.
Sente-se agraciado, pois toda a sua alma rejubila e vibra brilhante pela magia da criação, da elevação, da certeza de ter ultrapassado e sentido para além dos limites humanos depois de conhecer um pouco da verdadeira força e beleza da energia que compõe cada átomo daquilo que existe e ser acompanhado pela orquestra celestial, que a sua mente chamou para o amparar e aplacar o seu sofrimento.
Ele era pois, apenas mais um instrumento da canção universal, e como tal deixou-se conduzir também pelo Maestro, deixando a canção desembocar, num último suspiro, numa última lágrima, na última e solitária nota libertada pelo martelo que tocou a corda accionada pela tecla do piano, disse adeus pela última vez, depois de tantas e de diversas formas quando a sua boca se abria para cantar mais um verso...
Disse-o aos grilhões que o prendiam...
Disse-o à sua dor e amargura...
Sentado no meio da sala de olhos fechados vai sentindo a eternidade dos escassos minutos de duração da canção desvanecer-se...
O silêncio faz o seu papel durante alguns minutos, absorvendo as sensações e os resquícios de uma peça que ganhou vida própria desenvolvendo-se pela forma labiríntica que são os sentimentos que povoam a alma humana.
Agora estava de volta. Terminou a canção...
O peito inspira profundamente uma vez mais, agora não para cantar de novo, mas para calar o último soluço.
A dor não acabara aqui, era apenas o seu caprichoso começo, que ficaria imortalizado na canção que acabara de escrever.
Agora começaria a longa espera, para as feridas que iriam demorar a sarar, para que o tempo se desenrolasse rapidamente no seu novelo, sem se emaranhar...
O início de dias intermináveis procurando algo que não iria encontrar, porque o que irá procurar não é um objecto, mas sim uma presença, um olhar, um movimento, uma voz, um toque, um carinho, um beijo, um abraço por entre os lençóis finos da noite, e no entanto, muito mais que isso.
Esta é a canção que perdurará ecoando em todo o lugar, até que outra assuma o seu lugar.
.:sing - travis
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