[Acorda.]
Vou escolher um CD para me ajudar a despertar...
Bach... sim...
Maravilhoso...
Que ponto escuro é aquele no tecto? Ponto escuro? Está escuro? Já? Que…?
[Despertador…]
DEZ HORAS?!?
Por todas as almas que ardem no Inferno e sofrem o tormento eterno! Estava mesmo cansado...
A confusão apodera-se de si…
O tempo passou por mim e eu nem senti. Não me lembro da viagem. Não me lembro de ter entrado no apartamento e de ter caminhado até à minha adorada... cama...
QUE DOR DE CABEÇA DESCOMUNAL!
E este incessante trinar nos ouvidos não está a ajudar, junto com a inquietação. Apetece-me sair. JÁ!
[Na rua.]
A cidade parece ter vida própria. O movimento, as luzes e os sons confundem Ferro, no seu bailado cacofónico. A ansiedade e necessidade de chegar a qualquer lado impelem-no, mas guiam-no aos tropeções.
Se continuar a andar distraído vou acabar como uma panqueca extra-enxofre no meio da estrada.
Mais um táxi nojento que abana mais que um navio em alto-mar, mas tendo a particularidade louvável de o seu condutor ser extremamente silencioso...
Trinta minutos depois o táxi pára na baixa. Não se recorda de ter dado instruções ao condutor.
A noite está tensa, e ele sente-se nervoso. Sente o ar electrificado e o medo é quase palpável.
Sinto-me como um gato com o pêlo das costas todo eriçado. Algo de muito estranho se está a passar... Sinto-me atraído para oeste como uma traça para a luz. Não percebo…
Os seus passos conduzem-no instintivamente. Respondendo a um chamamento. Ele nada faz para se tentar contrariar. Na realidade, não sabe se pode.
[Ao fundo, uma indicação]
Armazém 66F! Eu vou, claro!
Um sorriso forma-se frio nos seus lábios. Estende a mão e toca na campainha. Minutos depois um “gorilão” abre a porta e num grunhido pergunta-lhe que faz aqui.
Não sente apetência por dar explicações antes de as receber. Olha-o nos olhos e ele afasta-se. Podia seguir em frente, mas desce as escadas.
Quem, ou o que me chamou aqui está lá em baixo. As coisas começam a fazer sentido…
Agora são quatro gigantes que saem para lhe barrar o caminho. Suspeita que a subtileza não vai funcionar desta vez. Eles berram e lançam-se para cima de si. Ferro sente-se invulgarmente forte. A maior sensação de poder desde há muito tempo. Deixa-os avançar, até quase sentir a sua respiração nauseabunda em cima do seu rosto. Os seus movimentos ao contrário dos seus opositores, são lestos e poderosos. Sem que percebam como, num instante estão caídos no chão e extremamente mal tratados.
Fui bonzinho. Muito bonzinho...
Entra na sala iluminada por centenas de velas e pelo pentagrama em fogo, e dá uma gargalhada sonora para espanto daqueles miseráveis que se julgam acima da média da humanidade.
Gostava de saber de onde vem esta mania das velas e dos pentagramas… tsc…
Sente a incompreensão mesclada com o medo, até que uma voz trémula, proveniente daquele que parece ser o responsável, pergunta:
- Quem és tu? Que fazes aqui?
Olha em volta, abre a boca e para seu próprio espanto, a sua voz sai gutural e reverberante dos seus lábios.
- QUEM ME CHAMOU AQUI?
Sempre gostei do “show-off”, mas isto ultrapassa largamente as minhas expectativas…
a invocação, continua...

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