Ela dorme profundamente ao seu lado. Ele move-se devagar para fora da cama e…
Uiiiiii.... Acho que bebi mesmo muitas vodkas... Já estou prontinho para sair, agora é só não fazer barulho...
Já dentro da roupa, ainda que meio tonto, ouve a voz de Sarah, ensonada, tornando-se ainda mais rouca e sensual. Olha na sua direcção, maravilhado…
Ainda mais bela, esta manhã. Eh lá! Ganha juízo. Uma noite é uma noite. Não te percas...
- Já vais?
- Tenho... trabalho...
- Voltas? Ligas? Não digo hoje, nem amanhã... Um dia destes...
Podia mentir, embora não saiba bem qual das respostas seria a mentira...
- Talvez...
Ah, não faças essa carinha…
- Ok, então... É escusado perguntar se queres o pequeno-almoço...
…nem me fales com essa voz…
- É melhor não, já estou atrasado...
Sente que sai acossado da casa de Sarah. Na rua, vai atropelando e sendo atropelado pelos transeuntes, como que a tentar escapar de uma terrível ameaça invisível.
Aleluia, um táxi!
- Já viu estes filhosdaputa? Entopem as ruas, em vez de utilizarem os transportes públicos…
Oh não! Só me faltava um destes magníficos filósofos do trânsito, que fala sem parar acerca de todos os males do mundo, dos cabrões dos autarcas, e sabe-se lá de quem mais, em conluio para tornar a cidade num perfeito caos.
- Não têm famílias para sustentar, como eu…
E Blá, blá, blá, blá... As palavras já me caem das orelhas...
- É isso e o cabrão do Presidente da Câmara….
Eu não disse? Passaram dois minutos e já pensei num milhão de coisas más para lhe fazer.
O taxista, como que se apercebendo, remete-se ao acto de bufar o ar em cada semáforo, cruzamento e fila de trânsito. Ferro já não sabe bem se não o está a irritar mais que antes…
A verdade é que está de novo num dilema, mas relutante em admiti-lo. Preenche o pensamento com ideias vagas para fugir ao que realmente o apoquenta, e com boas razões para o fazer.
Há dias assim. Acordamos e sentimo-nos um monte de esterco. Acordamos de tal forma com os pés na terra, que sentimos a força gravítica a actuar sobre nós.
Hoje é mesmo um daqueles dias que nos apetece dizer ‘merda’ para adornar cada observação. Do género de alguém perguntar: ‘Está tudo bem?’, ao que respondemos com um encolher de ombros, ‘A mesma merda do costume’; ‘E que andas a fazer?’ – ‘Tenho uma série de merdas para tratar’. Isto, e muito mais.
A música que soa nos meus ouvidos desde que acordei é “Minute of Decay” do Marylin Manson com ‘I’m on my way down now, I’d like to take you with me...” a rodar em ‘loop’ na minha cabeça. Absolutamente irritante depois da primeira hora.
A má disposição persegue-me …
Merda! Tenho mesmo que fazer alguma coisa. Chatear alguém para desopilar um bocado, se não em breve estou a conjurar alguma coisa má...
Tenho que ter calma. Há muito trabalho a fazer. Muitas almas a corromper...
Por segundos, sentiu-se acalmar, mas os seus pensamentos conseguem finalmente escapar-se da teia em que os tentava manter e recordam-no daquele olhar, do qual se sabia cativo e incapaz de escapar.
Ah, É um dia bom para fazer umas maldades valentes. Estou num daqueles dias que era capaz de matar para me divertir. HA, HA, HA… há. Bah, que nojeira de disposição...
O meu humor está nos píncaros. Sádico, sardónico e absolutamente seco. Mais seco que um Martini no deserto do Sahara…
Sahara... Sarah... Saraaaaaaaahh….
Raios… lá se foi a mentira perfeita…
Acho que estou a abrir (mais) uma precedência... um demónio com consciência... Merda! Se o chefe sabe… já imagino a carta…
Algo me diz que ele poderia não ser tão simpático…
Ainda envolto nestes devaneios, e com a chave na mão, depois de abrir a porta do apartamento, sente o mundo a fugir-lhe debaixo dos pés. Consegue fechar a porta, mas sem que consiga dar um passo, o mundo dá três cambalhotas a uma velocidade estonteante, o negrume toma conta dos seus pensamentos, colhendo-o, antes mesmo que o seu corpo embata desamparadamente no chão...
e, diabolicamente continuará muito em breve


0 comentários:
Enviar um comentário