Sexta-feira, Outubro 01, 2010

a última tentação (a invocação II - episódio 9)






E pronto, como deu para perceber no episódio anterior, uns palhaços decidem conjurar um demónio. E quem foi? Quem foi? EU!
E pergunto, porquê eu? Como se não bastasse, para minha humilhação, tive que aceder a uma invocação… de táxi. De Táxi!
Mestre, porque me tratas assim?
Noutros tempos surgiria no meio do pentagrama com fuminhos e outros tipos de parafernália típica de uma aparição demoníaca. Mas para quê lamentar-me? Feitas as contas, não me saí assim tão mal. Sem saberem estes mongolóides estão a dar-me o poder para os subjugar. A estupidez humana não tem limites. Claro que o engenho deles também não - afinal conseguiram invocar (será que se aplica o termo?) um demónio inactivo.

Todos se ajoelham, e num salto gracioso…

Ó narrador! Os meus saltos são sempre graciosos…
Queres ser tu a narrar?
Não…
Então cala-te! Onde é que eu ia… ah, já me lembro…
…num salto graciosíssimo (melhor?), coloca-se sobre o altar profano que ergueram para si.
Simpáticos…
Olha, narrador, não dá para ter uma maçã para roer enquanto os observo de “bolinha” baixa à espera dos meus ditames?
Ainda não te calaste?
Ok, ok…

Deixa o silêncio perdurar e tornar-se incómodo. Senta-se no altar e num tom baixo volta a falar.
- Quem manda aqui?
- É o senhor das trevas, o bastardo dos infernos, o...
- Deixa-te de babosices. Quem é o responsável por esta conjuração?
- Sou eu mestre...
- Ah sim? E o que pretendes chamando-me aqui?
- Servir, aquele que há-de... 

Seguro-me para não me rir. Como se houvesse outra hipótese...

- Estou a perder a paciência contigo! Decerto pretendes poder e riqueza, mas o que tens para me dar em troca?
- Mestre, não pretendia ofendê-lo... Darei tudo em troca. As nossas almas...
- Bah! Não podes dar o que já não te pertence. A tua alma está perdida. Não tens nada para negociar.
- Mas... eu posso arranjar outras...
- CHEGA! Vou-me embora! Voltarei quando as tiveres... Não voltes a incomodar-me com balelas...
- NÃO!
O seu grito soa agudo e estridente nas minhas costas. 

Noutros tempos só pela afronta já o tinha pregado a uma parede com um pensamento, mas hoje...

- Não passei tantos anos e gastei tanto dinheiro para ser tratado assim. Vais ajoelhar-te aos meus pés demónio!
Ferro volta-se, quando o homenzinho começa a recitar palavras arcaicas de um velho livro, tentando guardar a surpresa para si.

Não sabia que ainda se podiam encontrar tais relíquias...

- Ó verme ignorante. As tuas palavras não têm poder para mim. Podia esmagar-te agora, mas sofrerás até ao fim dos teus dias imaginando o quanto irás sofrer pela eternidade.
Estende a mão e com o pouco poder que lhe restava apaga todas as velas do recinto.

O poder esvaiu-se. Só me resta o “bluff”.

Com este pensamento, dirige-se lentamente para a saída, torcendo para que funcione. Os olhos dos seguranças estão postos em si. Repreende-se por não os ter eliminado quando pôde, pois trouxeram mais meia dúzia de amigos. Firmemente apela ao meu autocontrole e consegue sair sem vacilar.

São muitos para mim.

Já na rua sem olhar para trás escolhe rapidamente o caminho que pode ocultar da melhor forma a sua fuga. Como um animal acossado, sente que o perigo vai saltar a qualquer momento de uma esquina obscurecida qualquer.
Segue em frente para um beco ainda mais escuro e sabendo que já não o podem ver acelero o passo até se afastar ziguezagueando por entre os armazéns. Pára encostado a uma parede para descansar.

Desta vez tive sorte. Escapei. Os ardis e a astúcia não me darão guarida eternamente.

- Onofreeeeee, long time, no seen…

Bem, falei cedo demais...

Ferro levanta os olhos e reconhece quem o chama. A adrenalina impede-o de sentir o medo que deveria.

Oh, Merda... Aí vem merda... Ok, vamos lá fechar o dia com a chave condizente...




No próximo episódio... já ouviram falar dos outros?

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