A música provém suavemente do piano, preenchendo a sala…
Fred, encostado ao balcão, aspira o fumo do seu cigarro. Aprecia a música, muito embora mantenha o seu semblante sério e distante, como alguém que pensa num desígnio muito além do que seria capaz qualquer comum mortal. É tudo fachada. Neste momento, Fred, ex-demónio, procura adaptar-se à vida, como qualquer outro mortal.
Mas Fred não é mortal, contudo, não o sabe. Sabe apenas que já fora outra coisa. Sabe outras coisas que estes que o rodeiam não sabem, no entanto, o que eles sabem, poderia ser-lhe muito útil.
Ele está confuso e perdido. Não faz mais que dois meses, desde que se viu neste novo panorama. Poder-se-á dizer que está assustado. Fred, por exemplo, nem é o seu verdadeiro nome, descobriu, porém, neste pouco espaço de tempo que Onofre não é um nome bonito.
Perdido entre o fumo do cigarro e o seu olhar vago, não se apercebe e subitamente a atmosfera altera-se.
O mundo pára…
Ela entra na sala.
Ele reconhece-a…
Conheço-a!
Mas a sua mente diz-lhe que é impossível.
É impossível!
Uma mulher. A mais bela. A encarnação da beleza, mas não só. Muito mais… uma supresa…
Que partida me pregam?
Os seus pés movem-se automaticamente na sua direcção. Não sabe se é certo ou errado. Não pensa nisso. Não pensa sequer.
Vai, como sempre, atraído como uma traça para a luz.
O seu corpo desiste em frente dela. Transformar-se-ia em papa, se fosse possível. Está sem jeito. Sente-se desconfortável. Apela com todas as forças que lhe restam para manter a compostura. Parece um trabalho de Hércules, fadado ao insucesso.
Meu palerma! Aguenta-te! Aguentem-se joelhos! Parem de tremer!
Ela sorri quando o vê, e num instante, todos os seus esforços pareceram em vão. Toca a debandada e os exércitos batem em retirada. Todos os “lemmings”, caem ao mar…
As mãos do pianista correm sobre as teclas e uma outra música começa…
Ela move os lábios como quem canta em surdina acompanhando a voz de um mestre cantor…
- You must remember this…
Os dele seguem…
- A kiss is still a kiss…
E em conjunto…
- A sigh is just a sigh…
Uma eternidade converte-se num único momento, a realidade conflui para um minúsculo ponto no horizonte, quando as suas mãos se tocam, e se levam em conjunto numa dança que simplesmente poderia durar…
Um sentimento de quem está de volta a casa apodera-se deles. Tudo faz agora sentido no meio do caos. O seu beijo sela uma promessa, que não tem lugar, nem tempo para acontecer.
E talvez por essa mesma razão, não acontece. Não agora… nunca?
Os corpos afastam-se. As mãos soltam-se e o espaço entre eles, cresce infinito…
A banda deixou de tocar…
A sala ficou vazia…
O silêncio, a solidão e a escuridão, tomam conta do lugar…
…
Algures um piano deixa-se ouvir baixinho, e uma voz canta:
“And when two lovers woo
They still say, "I love you."
On that you can rely
No matter what the future brings
As time goes by…”
A tentação, continua, depois do sonho...
Este episódio é dedicado a estes dois fantásticos actores Humphrey Bogart e Audrey Hepburn...
Desculpem esta humilde dedicatória...
Wherever you are, you will always rule and rock my world...
Ah, eu sei que não é a Audrey que entra no "Casablanca", mas isto não é o "Casablanca", é "a última tentação". Obrigado.





1 comentários:
clap, clap, clap!
Fántástico! Fez-me comentar, arrepiar e sonhar! :)
And the story goes...
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